Espelho de mim mesma...

Só mostro o que tenho no olhar!

11 maio 2005

Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Seminário de Escrita Criativa. O tema era livre e o objectivo era contruir uma história partindo de uma facto que conhecessemos bem.

Naquele dia tudo não passava de mais um sábado em que depois de almoço a Mafalda se despedia dos pais, com um sorriso de orelha a orelha, porque ia para a sede dos Escoteiros. Andava lá desde muito nova, tendo pertencido à Alcateia e estando agora na Tribo Sénior.Os primeiros sábados de cada mês eram particularmente especiais, uma vez que estava estipulado pelo grupo irem todos fardados para ter reunião geral. Apesar de cada dia da semana se sentir sempre escoteira aqueles sábados era como se estivesse a oficializar o seu escotismo.Tinha sido uma semana em grande. Recebeu as notas do final do 2ºperíodo, festas na escola e uma festa de anos onde pôde sair à noite pela primeira vez com os amigos. Mafalda sentia-se feliz, tinha passado uma semana cheia de surpresas e era sábado, o dia da semana de que mais gostava. É certo que o facto de ter de ir todos os sábados à tarde para os escoteiros podia levar a Mafalda ao cansaço, tornava-se uma rotina, por isso muitos desistem mas, para ela, o mais importante é o que lá vivem, o que aprendem, o que fazem, o quanto se divertem, etc.Mafalda ligou de manhã para a Rita e combinaram encontrar-se junto do portão da escola, às 14h50 para seguirem para a sede. E assim foi.Pelo caminho puseram a conversa em dia e tudo corria bem até que a Mafalda sentiu uma forte dor no joelho, pedindo à Rita para abrandar o passo, uma vez que não estava a conseguir andar com aquela dor. Decidiram então sentar-se uma pouco no jardim da Igreja para ver se a Mafalda melhorava.- É uma dor horrível Rita! – exclama Mafalda com ar de sofrimento.- Mas é a primeira vez?- Mais ou menos. Esta semana na aula de educação física senti algo parecido, mas foi breve. Até pensei que fosse do cansaço.- Queres voltar para casa? Vou contigo. Podemos também ligar aos teus pais e vêm-te buscar.- Não deixa estar, isto já passa! Além disso também não quero faltar aos Escoteiros. Estou ansiosa por saber qual vai ser a actividade de fim de ano Escotista.- Oh Mafalda também não exageres, a actividade é só daqui a um mês. Hoje só nos vão comunicar o que é.- Eu quero ir Rita, vamos. Já estou melhor. – levantando-se e tentando andar.Depois daqueles breves minutos em que Rita tentou que a dita dor no joelho passasse dirigiram-se para a sede. Estava mesmo a começar a reunião geral. O chefe de grupo ia anunciar a todos qual iria ser a actividade para o fim do ano escotista. Tinha ficado decidido numa reunião de chefia que iria ser feito um acampamento no Vale da Asseiceira em que existiam dois grupos, um de Celtas outro de Visigodos. Cada grupo tinha cerca de 20 elementos e um rei. Iriam ser travadas algumas batalhas e uns jogos tradicionais e três dias de pura aventura.Depois de anunciada a actividade foi a vez dos esclarecimentos. Era preciso madeira e tinta para os escudos, para as espadas, tecido para os fatos de cada equipa, cordas, tendas, ou seja, tudo o que já estão habituados para qualquer acampamento mais o material para a actividade. Aproveitaram e dividiram também logo as equipas e seleccionaram os reis.Foram algumas horas de confusão ora porque não se concordava com o desenho dos fatos ora porque se queria pertencer àquela equipa e não à outra enfim, as confusões habituais de grupos muito grandes.Ao contrário de sempre naquele sábado a Mafalda não estava com a alegria e a genica a que os colegas estavam habituados.- Que é que tens Mafalda? – questiona o Pedro.- Nada, porquê?- Estás aí tão sossegada e pareces triste. – acrescenta o André, o chefe da tribo.- Não é nada de especial, apenas uma dor no joelho.E a conversa ficou assim.A reunião tinha começado às 15h15 e ainda não era 17horas já a Mafalda estava a pedir para se ir embora. Quem ouviu estranhou porque é sempre das primeiras a chegar e das últimas a querer ir embora, mas há dias e dias.- Olha André não me estou a sentir bem, há problema se ligar aos meus pais para me virem buscar? – pergunta impaciente.- Então não estás melhor? Magoaste-te?- Não, foi apenas uma dor que me deu quando vinha para a sede e até agora ainda não passou!- Está bem, então aguarda no teu canto que vou ligar para tua casa.O pouco tempo que os pais da Mafalda demoraram a chegar pareceram-lhe horas. Por incrível que pareça, pela primeira vez em tantos anos de escoteira, a Mafalda queria ir para casa.- Então filha o que é que se passa contigo? – pergunta a mãe muito preocupada.- Oh mãe esta semana quando estava na aula de educação física deu-me uma dor forte no joelho mas foi breve e pensei que fosse cansaço ou até mesmo aquelas dores de crescimento que de vez em quando me dão. Mas desta vez foi ainda mais forte e até agora não passou.
Mafalda desde sempre sofreu muito com dores nas pernas mas, segundo o pediatra, eram dores normais de uma criança em crescimento e por causa disso os pais dela levaram-na para casa e depois de uma bom banho de água quentinha puseram-na na cama a descansar, como já era habitual quando tinha as ditas dores do crescimento.Até aquele sábado o procedimento tinha sido sempre o mesmo. Depois de uma bom banho e de umas horas na cama as dores passavam mas, naquele dia, isso não aconteceu. A noite já ia longa e Mafalda continuava a queixar-se de dores fortes no joelho. Foi então que os pais, cada vez mais preocupados, decidiram ir com ela para as urgências. Quem estava de banco era o Dr. Marçal, um médico amigo da família. Depois de examinar Mafalda com atenção referiu que:- Assim à primeira vista parece-me mais um daqueles ataques de dores de crescimento que a Mafalda, de vez em quando, tem.- Mas ela nunca se tinha queixado assim Dr. – diz o pai.- Vou-lhe receitar uns analgésicos para aliviar essas dores teimosas mas, de qualquer das formas, vou passar-lhe aqui alguns exames porque não estou a gostar nada desse inchaço do joelho.- O que é que está a pensar Dr.? Seja franco! Passa-se alguma coisa com a Mafalda?- Pode não ser nada mas é só por um descargo de consciência!- Desculpe lá, primeiro diz-me que são dores de crescimento, agora diz que vai ter de fazer exames. Diga o que se passa!- O problema é que não estou a gostar do inchaço do joelho da Mafalda. Não é normal para uma simples dor de crescimento. Estas podem ser dolorosas mas nunca incham as pernas, por isso é que quero que a Mafalda faça estas análises e estes exames.Depois de medicada e ainda com muitas dores Mafalda regressou a casa. No dia seguinte a dor persistia e não havia melhoras significativas.Foram semanas de grande agonia. Desde consultas com vários especialistas, esperas em consultórios, exames simples e outros mais dolorosos, análises que odiava, Mafalda passou por tudo e a resposta do que se passava tardava em aparecer fazendo os pais e a própria Mafalda desesperar.Durante todo esse tempo faltou a muitas aulas e também aos escoteiros e, embora fosse da vontade contra dos pais, Mafalda disse que melhorava ia ao acampamento. O último acampamento antes das férias grandes era sempre o mais esperado por todos e Mafalda, vivendo tão intensamente a vida de Escoteira, não queria deixar que a situação de saúde pela qual estava a passar comprometesse a sua participação na actividade.Cada elemento tinha ficado responsável de fazer o seu escudo e o seu fato mas, como a actividade era para todos, todos quiseram estar juntos quando preparassem o material. Combinavam depois das aulas e aos sábados logo pela manhã para que tudo ficasse o mais organizado possível. Ao contrário do que os colegas esperavam, Mafalda, não compareceu a muitos deste encontros extra. A forte dor que começou num joelho em dias começou a percorrer-lhe todos os membros. Por isso, embora com uma grande força de vontade, não conseguia ajudar os outros escoteiros porque tinha de passar muito tempo na cama.Depois de todo o processo de exames porque passou e sem resultados a mãe de Mafalda decidiu levá-la a um outro médico, talvez uma outra opinião conseguisse desvendar o que se estava a passar com a Mafalda. Desta vez, foi ao consultório do Dr. João Pedro que se dirigiram. Ele analisou-a, viu todos os exames e quis saber toda a história clínica da Mafalda até ali. Conversaram durante largos minutos e no fim o Dr. diz:- Bom, tendo em conta estes exames e segundo a minha análise aos membros da Mafalda, tenho três possíveis diagnósticos. Pode não ser nada do que estou a pensar mas...- É grave doutor? – pergunta a mãe de Mafalda ansiosa.- Depende do ponto de vista, mas não vamos sofrer por antecipação. A Mafalda vai ter de ir a um laboratório, que vos vou indicar, fazer uma análise e a partir dela poderei confirmar ou não aquilo que estou a pensar.- Mas não pode adiantar nada? Doutor isto está cada vez mais confuso, é a Mafalda a ter cada vez mais dores, os médicos e os exames a não darem nenhuma resposta e ela não é miúda de estar numa cama. Não sabe o esforço que faço para ela, mesmo doente, não ir para as aulas ou até mesmo para os escoteiros.- Eu penso que destas três hipóteses será uma mas, vamos ver. As possibilidades são: febre reumática, lupos ou artrite reumatóide.- Não estou a entender e estou a ficar preocupada.- Tenha calma, ainda não temos certezas pois não?E mais uma vez Mafalda teve de ir fazer análises, desta vez a Lisboa, ao consultório indicado pelo Dr. João Pedro. Passou cerca de uma semana e tiveram os resultados e, finalmente, estava encontrado o diagnóstico de Mafalda. Acabava de descobrir que tinha uma doença que nunca tinha ouvido falar, Artrite Reumatóide.- Mas o que é isso doutor? É grave? – pergunta a Mafalda muito perturbada.- Tem calma Mafalda. Vou explicar-te tudo. Primeiro de entre as três possibilidades que te dei da última vez esta, dentro do mal, é a melhor.- Então? Uma doença é sempre uma doença, não esteja a querer enganar-me.- Era o que estava a tentar fazer. Uma pessoa que sofre de febre reumática pode sofrer do coração, ou seja, é uma doença que o ataca. Por outro lado, os lúpus são muito chatos porque podes não poder apanhar sol nem temperatura. A artrite reumatóide ataca apenas as articulações.- Apenas? Mas o que é certo é que esse apenas custa muito. – diz Mafalda.- Sim mas por causa da artrite nunca vais sofrer do coração, dos rins, etc. Na verdade, é uma doença que provoca inflamações nas articulações do corpo e que pode atacar qualquer pessoa independentemente da idade. A artrite rouba a milhões de pessoas a liberdade de se movimentar, quebrando as cartilagens protectoras das articulações. Com a destruição dessas cartilagens a artrite provoca dor e redução dos movimentos.- Eu sou escoteira doutor! Preciso e quero ter os meus movimentos a 100%.- E tens. Não podes é abusar! Tens de ter imensos cuidados, nada de grandes esforços e tens de estar preparada para crises inflamatórias que podem surgir quando menos esperares e desaparecer em tempo indeterminado. A Artrite Reumatóide é uma doença crónica, marcada por alterações inflamatórias nas articulações, atrofia dos músculos e carência ou mesmo a falta dos ossos. Envolve um lento e doloroso processo de destruição Mafalda.Foi uma noticia muito chocante para a Mafalda, ter apenas 15 anos e já com uma doença para o resto da sua vida que vai, por algumas vezes, impedi-la de fazer o que bem quiser pois quando estiver com dores não conseguirá fazer o que mais gosta.Depois de descobrir a origem daquelas dores a Mafalda passou por alguns dias de grande angustia porque se por um lado queria preparar em conjunto com os colegas o acampamento dos Escoteiros por outro lado o seu próprio corpo não respondia como ela desejava. Perdeu o interesse por algumas coisas, talvez pela revolta que sentia em querer fazer uma série de coisas e não poder mas, o mais interessante, é que nunca deixou que a doença a atrapalhasse na sua vida de escoteira que tanto a motivava para não desistir de lutar contra as dores. Mesmo com muita dificuldade, se bem que muito medicada para aliviar as dores incomodas, a Mafalda nunca deixou de comparecer aos últimos preparativos para o acampamento. Chegou mesmo a entregar a ficha de participação.Pelas 8horas da manhã todo o grupo de escoteiros estava na sede, era a hora ideal para começar a partir com os elementos já preparados uma vez que a carrinha só leva nove pessoas. Por aquela carrinha já muitas histórias passaram, já muitos gritos e cantares de grupo soaram. As suas portas pesadas deixam passar a sua avançada idade se bem que muito bem tratada. Uns pontos de ferrugem, umas molas soltas no banco da frente fazem soltar risos em quem nela anda e a direcção ainda muito pesada faz o chefe de grupo suar como se estivesse a correr sofregamente.Desde os elementos da alcateia, passando pela tribo júnior e sénior até ao clã todos compareciam ansiosos por partir para mais uma aventura antecipadamente preparada. Estão todos presentes menos uma pessoa que nunca deixou passar qualquer actividade ao lado, a Mafalda.- Oh Rita a Mafalda? – pergunta a Teresa.- Não deve vir não é? Todos sabemos que tem estado doente.- Mas ontem liguei-lhe para saber como estava e ela disse-me que se sentia melhor e que hoje vinha cá ter com a Patrícia e o Tomás.- Pois não sei! Eles também ainda não chegaram, devem estar atrasados.Na verdade, a Rita sabia que era praticamente impossível que a Mafalda comparecesse no acampamento, ela tinha acompanhado o problema da amiga de perto desde o primeiro instante. Sempre foram muito amigas, desde miúdas, e nestes últimos momentos difíceis da Mafalda a Rita tem sido o seu apoio fundamental, por isso sabia que ela não se sentiria em condições para participar na actividade. Não era o que Mafalda lhe tinha dito porque não conseguia admitir que a doença estava a ser mais forte que ela mas Rita saia-o bem. Mafalda nunca mostrou vontade em não ir ao acampamento embora os pais tenham falado com o chefe de grupo a avisar que não contassem com a ela.Por volta das 11horas, todo o grupo estava instalado no Vale da Asseiceira. As tendas estavam montadas, havia uma tenda para raparigas e outra para rapazes e ainda uma grande que servia para o convívio e para as horas de comer. Prepararam com entusiasmo os campos de cada grupo, o dos Celtas caracterizava-se pela predominância do vermelho e o dos Visigodos pelo azul e cinza. Os chefes astiaram as bandeiras e os elementos aguardavam ansiosamente pelo inicio das actividades programadas.Supostamente, a menos que em caso de urgência, não estava prevista a visita ou o contacto com pessoas externas ao grupo mas quando iam dar inicio aos jogos tradicionais surge um carro ao longe. Aproximou-se devagar e quando parou todos deram um sorriso. O carro era o do pai da Mafalda e do seu interior saiu ela.- Não consegui faltar! – disse com um ar emocionado. Esperei por este acampamento durante todos estes meses e não quero deixar de participar convosco.- A Mafalda pediu muito, exigiu mesmo vir e eu, para a ver feliz, não consegui deixá-la em casa triste por cá não estar por isso decidi trazê-la cá.- E fez muito bem sr. António, a Mafalda faz-nos muita falta. – diz o chefe de grupo.- Sabem que não vou poder participar convosco na actividade mas só o facto de poder cá estar para mim já é bom.- E não precisas mesmo fazer nada. Estamos cá para te ajudar e tu com o teu bom humor e a tua presença ajudas-nos. – refere Rita dando-lhe um forte abraço.Foram três dias diferentes, de muita aventura, emoção, companheirismo mas o que interessou verdadeiramente para a Mafalda foi poder estar com os seus amigos escoteiros com quem se habituou a passar os dias e mesmo não participando a experiência foi tão boa que as dores foram ultrapassadas e ela divertiu-se tanto como se tivesse andado a fazer tudo como os outros.