Este texto foi realizado no âmbito da cadeira de Seminário de Escrita Criativa. O objectivo do trabalho era construir uma história em que no corpo de texto tinhamos palavras começadas por "sol".
A Maria e o João conheceram-se quando ainda era crianças, frequentaram a mesma escola durante vários anos e desde cedo se via neles uma grande empatia. Ela, na sua inocência de criança, dizia que queria aprender a cozinhar e passar ao ferro para quando casasse com ele saber fazer tudo. Por sua vez, ele queria estudar muito para poder ser rico e enche-la de jóias. Eram desejos inocentes mas o que se veio a mostrar ao longo dos anos é que o que os unia era algo de muito forte e diferente.Os pais de João tinham alguns problemas financeiros, a empresa de solas de sapatos onde os dois trabalhavam estava prestes a fechar as portas por causa das dividas e eles viram-se obrigados a procurar trabalho em Lisboa, onde as oportunidades eram maiores. Depois de algumas promessas de amizade eterna a Maria e o João despediram-se, ambos estavam muito tristes com o que lhes estava a acontecer, estavam habituados a conviver todos os dias e agora, possivelmente, deixariam de se ver, quem sabe para sempre.Maria cresceu sempre sem grandes dificuldades, estudou nos melhores colégios e com 18 anos entrou para o curso de Arquitectura, com que sempre sonhou. Por sua vez, João frequentou escolas públicas, o dinheiro que o pai ganhava no escritório de solução empresariais e a mãe no infantário não chegavam para ter os três filhos num colégio particular. Nunca faltaram com nada a nenhum dos três. Amor, carinho e atenção eram abundantes e os bens supérfluos ficavam guardados para épocas de aniversário ou quando as finanças estavam em condições para tal, caso contrário simplicidade acima de tudo desde que não faltasse comida no prato já estava bom para todos. João nunca teve uma ideia muito bem formada sobre o que é que iria estudar mas acabou por optar por Engenharia Informática.Ambos termiram as suas licenciaturas em cinco anos e actualmente estão muito bem empregados, João numa multi-nacional de produtos informáticos e Maria tem o seu próprio atelier. Têm as suas vidas muito bem orientadas e ambos continuam solteiros.Isabel, a irmã de Maria vai passar o fim de semana a Monte Gordo e convidou-a para a acompanhar. Era uma forma de sair e espairecer. Maria vive muito para o trabalho e a sua vida particular vai ficando para segundo plano, conheceram-lhe alguns namorados mas nenhum deles suficientemente capaz de a fazer-se apaixonar perdidamente.- Mana está um belo dia de praia vamos apanhar um solzinho para perdermos este tom de lixívia, vamos? – pergunta Isabel.- Não é que me apeteça muito mas vou contigo claro.O dia estava lindo, os raios de sol iluminavam toda a praia, o calor fazia os corpos suarem descontroladamente, era um perfeito dia de praia e as manas queriam aproveitar o máximo. Maria com o seu ar mais calmo preferiu sentar-se um pouco na esplanada da praia a comer um gelado enquanto Isabel não resistiu em ir logo para o bronze.O telefone de Maria não parava de tocar, os clientes nem no fim de semana a deixavam em paz. Ela é uma das arquitectas mais importantes de Santarém por isso não admira que não tenha tempo para si. Entre algumas chamadas telefónicas Maria conseguia desfrutar do seu corneto de morango. Enquanto olha no horizonte surge um rapaz alto, magro, muito moreno e de olhos cor de mel que lhe pede licença para tirar a cadeira e gentilmente ela responde “Claro, esteja à vontade”. Olham-se os olhos, Maria parece que solidificou a olhar para ele e pensou para si “Que rapaz tão giro!”.O rapaz sentou-se com dois amigos na mesa à sua frente e ela disfarçadamente olhava para ele, não apenas pelo seu bom aspecto mas também porque tinha a nítida sensação que já o tinha visto em qualquer lado mas não conseguia recordar-se onde. Pura coincidência ou não, o rapaz também fixava o olhar nela e aquela situação já estava a deixá-la incomodada. Por sorte Isabel aparece na esplanada e Maria questiona-a:- Então a água está quentinha?- Uma maravilha mana, tens de experimentar! Não vens para o sol um pouco?- Sim já vamos. Oh Isabel disfarçadamente olha para o teu lado esquerdo e vê lá se não conheces a cara daquele rapaz da t-shirt azul turquesa.E Isabel olhou e depois de observar bem o tal rapaz disse:- Oh mana a cara dele é-me familiar, mas de onde?- Tenho estado aqui a pensar, lembras-te do João?- Qual João?- Aquele que era meu amigo quando éramos miúdas. Aquele que costumava ir para nossa casa às vezes.- Qual aquele que tinha a mania que era soldado e que tu dizias que ia ser teu marido e querias aprender a cozinhar e mais não sei o quê?- Sim esse. Não dês nas vistas não é! Vê lá bem se não é ele, tenho quase a certeza que sim.E pura coincidência aquele moreno dos olhos verdes era o João. Estiveram anos e anos sem se verem e quando trocaram apenas algumas palavras houve algo que lhes tocou porque tanto ele como ela sentiram que se conheciam de algum lado. Foi ele que tomou a iniciativa de falar com ela. Fê-lo porque se ela ainda continuasse a ser como em criança, muito envergonhada, sabia que podiam ambos ir-se embora e não falavam. Foi mais forte que ele, nunca se tinha esquecido daquela rapariga, com quem tantas brincadeiras e confidências partilhou. Conversaram durante várias horas, tantas que Isabel torrou na praia de tanto sol que apanhou. Combinaram encontrar-se mais tarde para tomar um café e tentar pôr a conversa em dia.Aquela noite foi longa, havia tanta coisa para contar. Estiveram cerca de dez anos sem se ver e durante este tempo muitas foram as experiências vividas. Sentiam-se bem um com o outro, era como se nunca se tivessem separado. A cumplicidade, amizade e ternura permanecia entre os dois.Durante aqueles dias estiveram muitas horas juntos o que fez solidificar muito a sua amizade. Trocaram contactos e prometeram novos encontros e o mais interessante para os dois é que estavam relativamente perto, ela em Santarém ele no Cartaxo portanto não era difícil encontrarem-se.Durante seis meses viam-se mais de uma vez por semana e não tardaram a dar um passo mais à frente. Aquilo que já, inocentemente, os unia em miúdos permaneceu e descobriram que estavam apaixonados um pelo outro. Num ano casaram. Foi uma festa lindíssima, muitos convidados, muita musica, muitas flores, uma decoração em tons rosa choque, tudo à altura da data a festejar. Ficaram a viver em Santarém num apartamento de 3 assoalhadas e desejavam ansiosamente por um filho, de preferência um menino a quem dariam o nome Tomás. Estava tudo planeado nas suas vidas, o filho era o passo a dar a seguir. Monetariamente a vida corria-lhes bem e sentimentalmente também. Eram o casal perfeito com que muitas mulheres sonham.Um dia João sente-se mal no trabalho e regressa cedo a casa. Quando Maria chega encontra o marido com muito má cara, teve um mau pressentimento, algo se estava a passar com o João.- Que é que tens querido?- Maria, em primeiro lugar quero que saibas que toda a vida sonhei com uma mulher como tu, pensei que nunca mais nos iríamos encontrar e por obra do divino, talvez, fomos postos novamente no caminho um do outro mas...- João porque me estás a dizer essas coisas? João o que se passa, diz-me!João descobrira que sofria de insuficiência cardíaca e que a qualquer instante se poderia ficar, quando menos esperasse. Podiam ser horas, dias, meses ou até mesmo anos, nada nem ninguém sabia dizer. A única alternativa era colocar uma By-pass mas o tempo de espera entre o seu estado e a operação poderia ser fatal.- João nós temos dinheiro, conhecemos vários médicos, podemos antecipar a operação. João estou à espera de um filho teu.- O quê?- É isso mesmo que ouvis-te. Fiz hoje o teste e deu positivo. Amo-te demais para ficar sem ti meu amor, toda a vida pensei em ti e vamos ter um filho juntos.- Maria, ajuda-me a sair desta situação por nós, pelo nosso filho, por mim!Foram momentos muito difíceis na vida de Maria e João. A operação era uma solução mas podia não ter bons resultados e entre o tentar ou não preferiram que João fosse mesmo operado mas, o que se temia aconteceu, durante a operação João não resistiu e acabou por perder a vida, deixando Maria com um filho, fruto do amor que os unia. João ainda conheceu o filho, foi a sua última alegria. Embora muito angustiada, revoltada e sentindo uma enorme solidão por causa do que se sucedera Maria arranjou forças no Tomás para seguir em frente, nunca mais se envolvendo com ninguém e dedicando toda a sua vida ao filho.


<< Home