Exercício para a cadeira de Seminário de Escrita Criativa
O objectivo deste exercício é construir uma história a partir de 2 personagens, 2 enredos e 2 locais, previamente construídos na aula.
Personagens: João Espírito Santo e Alice Oliveira
Enredos: Mulher com carreira sobrevive a desastre de avião; reencontro entre pai e filho após 25 anos
Locais: Átrio de um hotel; Veterinário
Enredos: Mulher com carreira sobrevive a desastre de avião; reencontro entre pai e filho após 25 anos
Locais: Átrio de um hotel; Veterinário
Uma lição de vida...
São 7h30 da manhã, toca insistentemente o despertador de Alice que nem se mexe como se não estivesse a ouvir aquele som irritante que a perturba todas as manhãs, principalmente naquelas em que só dormiu 4 ou 5 horas devido a ter ficado a trabalhar pela noite dentro. Mesmo não sendo de sua extrema vontade sair do aconchego dos seus lençóis pensa para si própria:- Quem quer vencer na vida não pode ficar o dia inteiro às voltas na cama, portanto Alice, levanta-te que são horas!E foi isso que aconteceu. Ainda meio ensonada decidiu soltar os lençóis e o edredão de cima de si quase como se fosse um libertar de sonhos que se tinham perdido no momento em que o despertador tocou. Sentou-se na cama e olhou para o espelho, que fica mesmo ao lado da sua cama, onde todas as manhãs antes de sair de casa se olha para ver se está apresentável e com um aspecto de guerreira.Alice não descuida nem um pouco da sua imagem. É uma mulher muito bonita, alta, cabelos pretos pelos ombros meio encaracolados que lhe dão um toque mais sensual, um corpo com as medidas perfeitas que fazem qualquer homem suspirar, uns olhos a condizer com o cabelo e um tom de pele meio morena, no entanto, transporta em si uma amargura que se consegue sobrepor à sua beleza. Não é dada a muitas amizades nem a relacionamentos amorosos, talvez como resultado de relações passadas ou de más experiências.Antes de sair de casa Alice não deixa de tomar o pequeno almoço pois sabe que a partir do momento em que sair da porta do seu apartamento, com uma decoração moderna, muito colorido quase que se opondo à pessoa que Alice mostra ser no exterior, deixa de ter tempo até para comer uma vez que a profissão de editora do jornal cultural mais lido no país não lhe dá espaço para mais nada, até mesmo para a sua vida privada.Às 9horas Alice acaba de chegar às instalações do jornal onde trabalha, pontual como sempre e assim que os colegas a vêm, dirigem-se a ela cheios de problemas para resolver, deixando-a mal disposta assim que chega, respondendo com agressividade, aliás, como é conhecida por todos os funcionários do jornal, apesar de lhe reconhecerem todo o mérito que o jornal conseguiu alcançar nos últimos 2 anos.Depois das questões mais urgentes estarem resolvidas Alice recebe uma chamada interna. Era o patrão, Presidente do jornal onde laborava, função pela qual Alice trabalhava e lutava arduamente para conseguir. Dirigindo-se ao Gabinete do seu patrono este comunicou-lhe que:- Alice, dado o meu cansaço em estar à frente deste jornal vou colocar o meu cargo à disposição.Alice sorri.- É verdade, foram anos e anos de trabalho, horas de inquietação e ausente da minha família, os meus filhos cresceram e não acompanhei esse crescimento. Dinheiro? É verdade tenho muito mas hoje, com 57 anos, olho para trás e penso, será que valeu a pena? Que proveito para além do lucro terei disto tudo? Hoje tenho dois filhos que já me deram 2 netos, a minha esposa está doente, precisa de mim e mesmo que me custe, acredita que me vai custar muito, vou ter de aproveitar estes anos que ainda posso ter pela frente porque nada na vida é efémero e nós não sabemos o dia de amanhã. Hoje tenho toda a gente comigo, amanhã posso não ter as pessoas de quem gosto junto de mim e aí vou pensar que podia ter abdicado mais desta sede de sucesso e dar-lhes mais atenção, pois percebi que por muito dinheiro que uma pessoa tenha há um dia em que esse dinheiro embora ajude não pode evitar o aparecimento de doenças e problemas na vida privada.Alice ouve o Sr. Espírito Santo com atenção. Mal olha para ele porque embora o esteja a ouvir atentamente, o seu pensamento voa para o seu passado triste, o seu presente solitário e o seu futuro incerto. De repente, Alice toma consciência de que está a começar a chorar e interrompe o Sr. Espírito Santo, olhando-o nos olhos:- Pois, Sr. Espírito Santo isso é tudo verdade mas às vezes entregamo-nos ao trabalho e não há nada que nos detenha, é como que uma sede de vitória, uma sede de lucro, uma sede de reconhecimento, uma sede de tudo – aumentando o tom de voz.- Estás as chorar Alice?- Não Sr. Espírito Santo! As suas palavras estavam a fazer-me pensar na minha situação mas eu não tenho nada a perder. Não tenho marido nem filhos, a minha mãe faleceu há 3 anos, portanto, não há nada que me possa fazer hesitar.- Quantos anos tens?- Fiz há uma semana 35! – responde receosa.- Porque te dás tanto a este jornal? Bem sei que nem sempre os teus colegas se conseguem adaptar bem à tua maneira de ser mas o sucesso do nosso jornal nos últimos 2 anos deve-se maioritariamente ao teu empenho. Nunca em 26 anos de trabalho neste ramo consegui tão bons resultados.- Foi uma opção. A carreira profissional é a minha prioridade. Desculpe-me a pergunta mas não foi só para me comunicar que vai sair da Presidência deste jornal que me chamou até cá, pois não?Fugindo à pergunta de modo a compreender melhor Alice, o Sr. Espírito Santo questiona-a:- Desculpa se me estou a meter demasiado na tua vida mas depois das supostas 8h de trabalho como costuma ser a tua vida?- Como? – pergunta Alice.- Como ocupas a tua vida quando não estás a trabalhar? Com quem costumas privar?Quando Alice ia começar a falar eis que a secretária do Sr. Espírito Santo bate à porta. Queria dizer que o assistente de Alice precisava dela no seu gabinete e que era urgente.- Diz-lhe que ela está ocupada – responde o Sr. Espírito Santo ao recado.Alice olha para ele com um ar de estupefacção e questiona-o:- Porque mandou esse recado? Tenho a edição do jornal para fechar. Diga o que quer de mim Sr. Espírito Santo se não se importa!- Eu ainda sou o Presidente deste jornal, portanto, eu ordeno que fiques aqui.- Está certo! – responde Alice em tom submisso.Na verdade, o que o patrão de Alice queria era convidá-la a substituí-lo na presidência do jornal mas o problema é que embora Alice desempenhe muito bem as suas funções, como nunca nenhum funcionário o tinha feito, ela é bastante conhecida pelas suas capacidades mas também pela sua maneira de ser agressiva, intolerante com as falhas dos seus súbditos entre outros problemas que por vezes fazem os seus companheiros questionar a sua estadia naquele jornal, os outros accionistas do jornal temem que pela sua personalidade não consiga manter a ordem e desempenho dos outros funcionários. É aí que reside a dúvida do Sr. Espírito Santo em nomeá-la sem hesitações para Presidente do jornal.- Sabes Alice, tenho acompanhado muito de perto e com atenção o teu trabalho assim como o dos teus colegas e chego à conclusão que dentro deste jornal não há pessoa com mais garra, mais afirmação, mais empenho e vontade de chegar mais além que tu por isso, quanto a mim tu eras a pessoa indicada para me substituir na presidência.Alice sorri. É o seu maior objectivo dentro daquele jornal.- É isso que ambicionas não é? – pergunta Sr. Espírito Santo com um ar de extrema sinceridade.- Sabe que sim! É por isso que luto todos os dias e em todos os trabalhos que faço.- Mas porquê? Para quem Alice? É por ti que fazes isso?Alice levanta-se e dirige-se para a janela. Olha no horizonte e diz:- Há coisas na vida que o tempo não faz esquecer. Lembro-me de ser menina e de adorar animais. Morava numa vila perto de Coimbra e a uns largos metros de minha casa existia uma moradia isolada, com um grande jardim, com relva muito bem tratada, com algumas árvores de porte médio. Recordo-me que lá iam várias pessoas com os seus animais, ora porque estavam doentes ora porque iam levar a vacina. Todos os dias depois das aulas lá ia eu, toda contente. Existia naquela casa harmonia, havia um ambiente agradável, sentia-me bem lá. O pior era quando tinha de me vir embora. Sabia que quando chegasse a casa os meus pais ora discutiam porque a minha mãe queria trabalhar para ser independente ora porque ela descobria mais uma traição do meu pai. Nunca falhei um dia de visita ao consultório veterinário. Pelo menos lá sabia que ria, brincava, havia pessoas que me davam atenção. Talvez por isso quisesse ser veterinária pois, na minha inocência, pensava que ao sê-lo iria ter sempre atenção e carinho dos outros. Mas porque estou eu a contar isto?- Fala à vontade Alice!- Algum dia e com alguém um dia teria de desabafar! Pois é, um dia cheguei a casa e dei com a minha mãe a chorar. Era um choro diferente do do costume. Senti que naquele dia algo de mau tinha acontecido. O meu pai saíra de casa e até hoje nunca mais o voltei a ver.Alice nunca pensou estar a contar estas coisas ao seu patrão. Sentia-se esquisita. Mas fora ele quem puxara o assunto e ela, sem perceber bem porquê, quebrou o gelo com aquele homem que só conhecera como patrão. No entanto, havia alguma coisa que não a fazia parar de contar a sua história. Não era sua intenção que o Sr. Espírito Santo tivesse pena dela mas sentia-se bem em estar a contar-lhe todas aquelas coisas. E continuou:- Eu tinha na altura apenas 12 anos. A minha mãe viu-se obrigada a ter de arranjar emprego. Foi sempre o que ela quis mas agora a situação era diferente. Tinha de aceitar qualquer coisa porque me tinha a mim para sustentar. Nem tudo foi mau. O dono da clínica veterinária conseguiu arranjar-lhe emprego num hotel de 5 estrelas como empregada de limpeza. Era um trabalho puxado mas não havia outra escolha. A minha mentalidade teve de crescer rapidamente. Reconhecia que todo aquele brilho que o hotel tinha nada condizia com a minha mãe. Tudo aquilo era requinte, cheio de pormenores e atenções, portas giratórias já na altura, vidros quase invisíveis, espaços amplos para convívio, luzes que muito iluminavam todo o átrio, belos e enormes vasos com plantas, etc., luxo e mais luxo para alguém que apenas queria um salário para viver. Depressa a minha mãe deixou de dar o rendimento que era preciso porque começou a ficar doente. Foi aí que eu, precocemente, para colmatar a situação vi-me obrigada a trabalhar, fazendo todo o tipo de biscates de forma a ajudar a minha mãe. Quando tinha 18 anos fui para a universidade, ingressei no curso de germânicas e enquanto isso trabalhava num escritório de advogados como dactilografa.E a conversa continuou por várias horas. Alice contou por alto toda a sua vida até ao momento em que o Sr. Espírito Santo a chamara ao seu gabinete. Contara-lhe a sua relação com Aníbal, por quem se apaixonara na primeira troca de olhares. Casaram passados alguns meses pelo civil mas depressa o sonho de uma vida feliz se tornou num pesadelo. Aníbal revelou ser um homem violento e alcoólico, situação que o levou a ser despedido e o dinheiro que Alice ganhava mal chegava para as despesas da casa e para sustentar o terrível vício do marido. Apesar de não desejar a morte de Aníbal causada por uma cirrose galopante, Alice não conseguiu evitar o alívio que sentiu naquele fatídico dia. Alice deixou transparecer para o Sr. Espírito Santo que tinha o desejo, quase uma obsessão, de chegar a presidente da empresa onde trabalhava. Cria sê-lo para provar aos homens que as mulheres são capaz. Tinha ficado a dever esse sentimento à sua mãe pois também ela desde muito nova tinha sido uma excelente aluna mas por causa do marido tinha deixado esse sonho a meio, fruto do machismo. Chegou inclusivé a perder algumas relações amorosas por nunca ter conseguido desapegar-se do seu fanatismo pela profissão, embora o último com quem se envolvera a tivera marcado muito. Afonso, o redactor do jornal onde trabalha foi o homem que a fez esquecer a monotonia de um casamento falhado. Tinham uma relação moderna, sem compromissos mas que a preenchia na totalidade.Enquanto falava, Alice, nunca conseguiu olhar olhos nos olhos para o Sr. Espírito Santo. Era como que uma meta que esperava alcançar em breve, ou seja, iníciou o recontar de toda a sua vida agora tinha de terminar. Talvez aquele homem com quem nunca tinha mais nenhum assunto a tratar que não o trabalho estava agora a revelar-se um amigo que ela nunca conseguiu ter, estava a quebrar o gelo que a envolvera.O desabafo de Alice terminou com um longo suspiro, como se estivesse sufocada e acabara de conseguiu respirar finalmente. Por breves instantes houve silêncio na sala. Alice esperava que fosse o Sr. Espírito Santo a dizer qualquer coisa, sentia-se estranha depois daquela conversa.- Pois é Alice, às vezes a vida prega-nos partidas que não estamos preparados para enfrentar e, por vezes, quando achamos que passámos anos e anos a agir da forma mais correcta verificamos que nos enganámos profundamente e olhamos para trás, para o tempo que passou, e concluímos que nada daquilo que fizemos valeu a pena porque amigos, onde estão? A família, conhece-nos? Dinheiro, dá para tudo? Claro que não! O dinheiro é bom quando há felicidade, acredita que aquilo que de mais precioso há no mundo não se compra nem com milhares de euros – a felicidade, o amor e o carinho das pessoas.O Sr. Espírito Santo mesmo tendo uma posição a defender, sentiu que a rapariga que estava diante de si tinha mais para dar do que o trabalho. Depois de tudo o que Alice lhe contou, sentindo-se em divida para com ela começou ele a desabafar:- Sempre fui uma criança feliz, tinha o amor dos meus pais, nunca me faltou nada, nem saúde. Cresci como uma criança normal, no entanto, desde sempre me incutiram a sede, como tu chamas, de vencer, de ser melhor. E eu achei que isso é que era o normal, ser o melhor entre os melhores. O problema foi quando a minha personalidade mudou. Comecei a manifestar-me uma criança muito problemática, abusadora, mal educada e violento, ou seja, insuportável. As educadoras já não sabiam o que fazer. Eu, sem saber, era a razão de todos os problemas dentro da sala de aula. Batia nos meus colegas, respondia mal às professoras, não respeitava os castigos e tinha uma mania muito desagradável: cuspia para cima de tudo e de todos quando as coisas não eram feitas à minha maneira. Até pode parecer engraçado mas de facto não o era! Um dia, desesperada, a minha professora, decidiu convocar uma reunião de emergência com os meus pais, convencida que os meus problemas eram provocados por excesso de mimo. Mas as suas suposições estavam erradas: eu era o 5º de sete filhos. Não havia possibilidade de ser mimado, já que os meus pais passavam maior parte do dia a trabalhar e repartiam de igual forma a atenção por mim e pelos meus irmãos. A proferssora achou por bem aconselhar os meus pais a levarem-me a uma consulta de pediatria e que expusessem ao médico, sem ocultar nada, a minha situação instável. Lembro-me que na sala de espera não consegui parar quieto e cheguei a partir 2 cinzeiros. Os meus pais não sabiam o que fazer e já estavam envergonhados com toda aquela situação. Quando o médico me observou mostrou-se entusiasmado, pois sabia bem qual era o meu problema, eu era hiperactivo! É normal nas crianças daquela idade. No entanto, eu não era um caso único e o médico deu aos meus pais o contacto de uma associação onde vários pais de filhos com o mesmo problema se encontravam e partilhavam experiências. O conselho do médico foi seguido à risca e a minha situação acabou por se resolver. Para além disso, os meus pais encontraram naquela associação um apoio e um grupo de amigos para a vida!- Então e curou-se? – pergunta Alice sem saber muito bem o que dizer.- Curar curar nunca me curei mas com a idade a situação mudou e para além disso depois de encontrar a dita associação aprendemos todos a conviver com o problema, o que tornou toda a minha vida mais fácil.- Mas porque me está a contar isso Sr. Espírito Santo?- Esta conversa pode parecer-te estranha mas na verdade ela tem um porquê, no entanto, com o rumo que a nossa conversa está a tomar não posso deixar de te contar outra situação.A conversa já ia longa mas o Sr. Espírito Santo não pretendia acabar aquela conversa sem primeiro perceber de facto aquela rapariga e ajudá-la. Sentiu nela um grande sofrimento, aliás, o seu rosto mostrava já marcas da vida complicada que tinha tido. Olheiras escuras e profundas e algumas rugas de expressão, no entanto, a sua sensualidade não passava despercebida aos olhos dos homens com quem convivia.- Olha Alice tive sempre o que quis, posso dizê-lo! Mas hoje, com 57 anos, percebi aliás como já te disse antes, que nem tudo vale a pena na vida. Perto de minha casa vive há uns 15 anos um casal, agora já com uma certa idade, que nunca deu problemas aos vizinhos. Sempre bastante prestáveis, muito simpáticos mas que a minha mulher sempre notou que havia qualquer inquietação neles. Filhos, nunca lhos tinha visto! Esta é a questão importante da história que te conto, isto é, há cerca de 25 anos devido a uma discussão com os pais, esse tal casal de idade que mora perto de mim, o filho fugiu de casa e durante estes anos todos nunca mais se viram. Mas tal como também já te disse, a vida prega-nos muitas partidas e este casal não foi excepção. Entretanto, o meu vizinho adoeceu e manifestava como último desejo voltar a ver o seu filho mas devido às suas dificuldades financeiras, a esposa, não sabendo o que fazer lastimou-se às vizinhas, inclusivé à minha mulher. Conversando entre si, os vizinhos decidiram arranjar uma maneira de entrar em contacto com o filho. E perguntas-me tu, o que aconteceu?- E o que aconteceu? – pergunta Alice sorrindo.- A principio fiquei receoso de tomar parte da responsabilidade em encontrar o rapaz pois se durante 25 anos ele nunca procurara o pai porque haveria de ser eu a fazê-lo!? Mas a minha mulher insistia, insistia e eu decidi-me a ajudar aquele casal recorrendo-me a alguns conhecimentos pessoais investiguei mas durante algum tempo sem resultados até que um dia um amigo meu que trabalha no registo civil me contactou e me disse: “João, encontrei a pessoa que procuravas”. Por incrível que parece podia sentir que olha foi mais uma coisa que fiz na vida mas não! Senti que pela primeira vez estava a fazer algo para ajudar alguém sem pedir nada em troca, como faço no jornal, nós informamos as pessoas, damos-lhe informação e conhecimento mas queremos ser recompensados por isso, queremos lucro. Eu, a minha esposa e todos os outros vizinhos fizemos com que aquele homem sentisse alegria antes da sua morte, senti-me o veículo fundamental para a realização de um sonho tão simples como o de três pessoas que fazem parte umas das outras. Depois desse episódio comecei a olhar de outra forma para as relações pessoais entre as pessoas, não é preciso ter dinheiro para se ser feliz, basta ter as pessoas de quem gostamos muito junto de nós. Actualmente, a minha mulher está doente e eu decidi estar ao lado dela para a ajudar, quero aproveitar todos os dias que nos restam para estarmos juntos.- Mas Sr. Espírito Santo, se não me leva a mal, depois destas horas todas porque me contou estas histórias, justamente a mim? – pergunta-lhe inquieta.- Acho que está na altura de te contar a verdade. Como já te disse vou colocar o meu cargo à disposição por isso, por minha vontade, quero que sejas tu a ocupá-lo mas...- Mas?- Pois! É que os outros accionistas, reconhecendo-te todo o mérito que tens sem dúvida receiam que a tua relação com os teus colegas sejam cada vez pior. Tens de mudar Alice. As pessoas cometem erros, temos de ajudar essas pessoas a reconhecer esses erros e a ajudá-las a evitar que os cometam de novo. Bem sei que a tua vida não foi fácil mas tens de reconhecer que os teus colegas não têm culpa disso.- Está tudo muito certo mas então se eu não reúno todas as qualidades para estar à frente deste jornal porque me chamou até aqui e me disse todas estas coisas? – questiona o presidente, mostrando-se enervada.- Alice, nós queremos que sejas tu a sentar-te nesta cadeira mas para isso precisas de nos dar provas de que mereces este voto de confiança. Precisamos que vás aos EUA e sejas tu a decidir se devemos ou não fazer um acordo com uma empresa de marketing de lá. Essa é a prova que precisamos que dês, dela depende o teu futuro neste jornal. É uma estadia de 3 meses e esse acordo vai reflectir muito a boa ou má relação que estabeleceres com os accionistas da dita empresa. Aceitas?- Com todo o gosto! Prometo que não o desiludirei.Alice vai para casa e prepara toda a sua bagagem e documentação de que precisa. Era uma das suas viagens de negócios, decisiva para a sua ascensão na carreira. Teve um acidente de automóvel mas pôs a viagem em primeiro lugar, como sempre, e não prestou auxílio aos feridos. A viagem estava marcada para as 10 horas da manhã e no seu relógio contavam já 10h40, ou seja, por motivos desconhecidos aos futuros passageiros o voo estava atrasado. Usando o seu poder no mundo dos negócios e da sociedade em si, reivindicou obter informação para saber qual o motivo de tanto atraso. Informaram-lhe que havia problemas no avião e que estavam a tentar resolvê-los o mais depressa possível. Sem se saber qual a sua estratégia conseguiu que o avião descolasse mesmo assim.
Estava uma enorme tempestade no meio do Oceano Atlântico e era-lhes recomendado voltar para trás mas, como ela, havia mais pessoas a querer chegar rapidamente ao destino. O avião em que seguia desapareceu do radar. Foram minutos de grande desespero tanto para os tripulantes como para os controladores de tráfego. Estavam a temer o pior. Há uns anos, na mesma viagem tinha acontecido o mesmo, um avião com o mesmo destino tinha-se despenhado e não tinha havido sobreviventes. Enquanto estavam em perigo Alice nunca pôs a hipótese de poder morrer, era algo que a sua cabeça cheia de ideias para o novo negócio não tinha espaço. O avião onde seguia despenha-se e estranhamente morreu toda a tripulação menos ela.O susto de ter caído no mar fê-la desmaiar, naqueles breves segundos em que permaneceu lúcida sentiu que a sua vida acabava ali. Mas não! Umas horas à deriva no mar, inconsciente, levaram-na até uma ilha. As ondas empurravam-na para a beira da água e a força com que nela batiam fizeram-na acordar.- Onde estou? – pergunta Alice sem se aperceber onde se encontrava.Demorou algum tempo a recompor-se e quando caiu em si ficou alterada:- Não pode ser! Onde estão as outras pessoas? Onde estou? O que me aconteceu?Ninguém lhe podia responder, estava sozinha na ilha. Alice encontrava-se numa ilha deserta, sozinha, privada de todo o conforto e da vida agitada a que se habituara. Estava entregue a si própria.Passaram-se algumas semanas e Alice desesperava com a sua sorte.- Mas que mal fiz eu? Agora que estava tudo a correr-me bem!Durante essas semanas, alimentou-se de bananas, cocos e raízes. Eram alimentos que nunca imaginara comer numa situação daquelas. Alice mostrou toda a sua garra naquelas semanas, prometeu a si mesma que mesmo sozinha não morreria, alguém haveria de a encontrar nem que isso demorasse meses ou até mesmo anos. Construíu uma cabana com ramos de palmeiras e aquecia-se com umas roupas que entretanto foram dando à costa.- Onde estou eu? – perguntava a si mesmo frequentemente.Alice passou muito tempo a pensar na sua vida e sem que pudesse evitar pensou no presidente do jornal onde trabalhava como editora, o Sr. Espírito Santo.- Ele tinha razão. Para quê tanta sede? O dinheiro não vale tudo! Hoje tenho a consciência que tudo mudaria na minha vida. Talvez o acidente que tive a caminho do aeroporto tenha sido um sinal para não avançar para esta viagem, talvez a avaria no avião fosse um reforço desse sinal e eu, com este meu egoísmo, não quis perceber isso. Agora estou aqui, perdida no meio de uma ilha que não sei onde se situa, sozinha, privada de tudo e de todos...Agora sim Alice tomava consciência das palavras do Sr. Espírito Santo: “... às vezes a vida prega-nos partidas que não estamos preparados para enfrentar e, por vezes, quando achamos que passámos anos e anos a agir da forma mais correcta verificamos que nos enganámos profundamente e olhamos para trás, para o tempo que passou, e concluímos que nada daquilo que fizemos valeu a pena porque amigos, onde estão? A família, conhece-nos? Dinheiro, dá para tudo? Claro que não! O dinheiro é bom quando há felicidade, acredita que aquilo que de mais precioso há no mundo não se compra nem com milhares de euros – a felicidade, o amor e o carinho das pessoas...”. Inevitávelmente, Alice chorava perdidamente cada vez que se lembrava das palavras daquele que a ouvira com atenção e a chama-se à razão da vida.Um dia enquanto Alice procurava comida olhou para o horizonte e avistou um barco que se aproximava do sítio onde pernoitava. Correu com todas as suas forças para pedir ajuda, não queria que a oportunidade de ser salva e voltar para a civilização lhe escapasse. E foi isso que aconteceu, de uma forma bastante simpática toda a tripulação, depois de ouvir a história de Alice, levou-a de volta para Lisboa, onde tinha uma pessoa muito especial à sua espera – o Sr. Espírito Santo, que depois da lição de vida que Alice tirou daquela “estadia” na ilha deserta não hesitou em dar-lhe o merecido cargo de Presidente do jornal.
Estava uma enorme tempestade no meio do Oceano Atlântico e era-lhes recomendado voltar para trás mas, como ela, havia mais pessoas a querer chegar rapidamente ao destino. O avião em que seguia desapareceu do radar. Foram minutos de grande desespero tanto para os tripulantes como para os controladores de tráfego. Estavam a temer o pior. Há uns anos, na mesma viagem tinha acontecido o mesmo, um avião com o mesmo destino tinha-se despenhado e não tinha havido sobreviventes. Enquanto estavam em perigo Alice nunca pôs a hipótese de poder morrer, era algo que a sua cabeça cheia de ideias para o novo negócio não tinha espaço. O avião onde seguia despenha-se e estranhamente morreu toda a tripulação menos ela.O susto de ter caído no mar fê-la desmaiar, naqueles breves segundos em que permaneceu lúcida sentiu que a sua vida acabava ali. Mas não! Umas horas à deriva no mar, inconsciente, levaram-na até uma ilha. As ondas empurravam-na para a beira da água e a força com que nela batiam fizeram-na acordar.- Onde estou? – pergunta Alice sem se aperceber onde se encontrava.Demorou algum tempo a recompor-se e quando caiu em si ficou alterada:- Não pode ser! Onde estão as outras pessoas? Onde estou? O que me aconteceu?Ninguém lhe podia responder, estava sozinha na ilha. Alice encontrava-se numa ilha deserta, sozinha, privada de todo o conforto e da vida agitada a que se habituara. Estava entregue a si própria.Passaram-se algumas semanas e Alice desesperava com a sua sorte.- Mas que mal fiz eu? Agora que estava tudo a correr-me bem!Durante essas semanas, alimentou-se de bananas, cocos e raízes. Eram alimentos que nunca imaginara comer numa situação daquelas. Alice mostrou toda a sua garra naquelas semanas, prometeu a si mesma que mesmo sozinha não morreria, alguém haveria de a encontrar nem que isso demorasse meses ou até mesmo anos. Construíu uma cabana com ramos de palmeiras e aquecia-se com umas roupas que entretanto foram dando à costa.- Onde estou eu? – perguntava a si mesmo frequentemente.Alice passou muito tempo a pensar na sua vida e sem que pudesse evitar pensou no presidente do jornal onde trabalhava como editora, o Sr. Espírito Santo.- Ele tinha razão. Para quê tanta sede? O dinheiro não vale tudo! Hoje tenho a consciência que tudo mudaria na minha vida. Talvez o acidente que tive a caminho do aeroporto tenha sido um sinal para não avançar para esta viagem, talvez a avaria no avião fosse um reforço desse sinal e eu, com este meu egoísmo, não quis perceber isso. Agora estou aqui, perdida no meio de uma ilha que não sei onde se situa, sozinha, privada de tudo e de todos...Agora sim Alice tomava consciência das palavras do Sr. Espírito Santo: “... às vezes a vida prega-nos partidas que não estamos preparados para enfrentar e, por vezes, quando achamos que passámos anos e anos a agir da forma mais correcta verificamos que nos enganámos profundamente e olhamos para trás, para o tempo que passou, e concluímos que nada daquilo que fizemos valeu a pena porque amigos, onde estão? A família, conhece-nos? Dinheiro, dá para tudo? Claro que não! O dinheiro é bom quando há felicidade, acredita que aquilo que de mais precioso há no mundo não se compra nem com milhares de euros – a felicidade, o amor e o carinho das pessoas...”. Inevitávelmente, Alice chorava perdidamente cada vez que se lembrava das palavras daquele que a ouvira com atenção e a chama-se à razão da vida.Um dia enquanto Alice procurava comida olhou para o horizonte e avistou um barco que se aproximava do sítio onde pernoitava. Correu com todas as suas forças para pedir ajuda, não queria que a oportunidade de ser salva e voltar para a civilização lhe escapasse. E foi isso que aconteceu, de uma forma bastante simpática toda a tripulação, depois de ouvir a história de Alice, levou-a de volta para Lisboa, onde tinha uma pessoa muito especial à sua espera – o Sr. Espírito Santo, que depois da lição de vida que Alice tirou daquela “estadia” na ilha deserta não hesitou em dar-lhe o merecido cargo de Presidente do jornal.



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